Todos os dias, por volta do meio-dia, José da Cruz (nome fictício) segue o mesmo caminho até o Restaurante Comunitário da Estrutural. Em situação de rua e sem renda fixa, ele encontra ali a única garantia de uma refeição digna. “Não tenho outro lugar. Aqui é de graça, é certo de vir comer, me alimentar”, resume. Para ele, o restaurante representa mais do que comida no prato: é uma questão de sobrevivência. “Saio com a barriguinha cheia, satisfeito.”
O relato de José é retrato vivo do impacto das políticas públicas de segurança alimentar no Distrito Federal. De acordo com o terceiro estudo temático do 2º Censo Distrital da População em Situação de Rua, divulgado nesta semana pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF), o número de pessoas em situação de rua que recorrem aos restaurantes comunitários cresceu significativamente. Em 2022, apenas 13% dos entrevistados se alimentavam nesses espaços. Em 2025, esse número subiu para 45,1% — um salto de 32,1 pontos percentuais.
A frequência também aumentou: 44,7% dos entrevistados afirmaram ter utilizado os restaurantes cinco vezes ou mais nos últimos seis meses. No censo anterior, esse percentual era de 18,3%. Para o secretário-chefe da Casa Civil e coordenador da Política Distrital para a População em Situação de Rua, Gustavo Rocha, os números refletem o êxito das ações do Governo do Distrito Federal (GDF). “O acesso à alimentação é um direito básico, e garantir esse direito é uma das prioridades da gestão”, afirmou.
Atualmente, o DF conta com 18 restaurantes comunitários em funcionamento, dos quais 15 operam todos os dias da semana, inclusive feriados. As refeições completas — café da manhã, almoço e jantar — são servidas por apenas R$ 2, sendo gratuitas para pessoas cadastradas em situação de vulnerabilidade.
Segundo a diretora de Estudos e Políticas Sociais do IPEDF, Marcela Machado, os dados permitem compreender melhor as condições de vida das pessoas em situação de rua, especialmente no que diz respeito à segurança alimentar. “É essencial garantir ações articuladas que respondam de forma efetiva às necessidades dessa população no DF”, pontuou.
Além da alimentação, o censo também revelou desafios no campo da saúde. Grande parte das pessoas em situação de rua enfrenta sintomas de ansiedade, depressão e dores persistentes. O estudo, realizado com 568 pessoas entre os dias 4 e 7 de fevereiro deste ano, contou com a parceria da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes).
“O IPEDF cumpre papel fundamental ao subsidiar o planejamento e a avaliação das políticas públicas”, destacou o diretor-presidente do instituto, Manoel Clementino. Já para Gustavo Rocha, a pesquisa confirma que a gestão está no caminho certo. “Nosso foco é ampliar a dignidade, o cuidado e a proteção social para todos os cidadãos do DF.”
