A violência contra enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem no Distrito Federal foi tema de audiência pública na manhã desta sexta-feira (5), na Câmara Legislativa. O encontro, proposto pela deputada Dayse Amarilio (PSB), discutiu um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPE-DF), que revela altos índices de agressões sofridas por profissionais da área.
A pesquisa ouviu 280 enfermeiras e 422 técnicas e auxiliares de enfermagem e mostrou que 61,7% já foram vítimas de agressões verbais, 35,6% sofreram assédio moral, 15% violência física e 8,4% assédio sexual. A maioria das entrevistadas apontou agressões verbais e assédio moral como as formas mais recorrentes de violência.
Segundo o levantamento, pacientes, familiares e acompanhantes são os principais agressores em casos de violência física, assédio sexual e agressões verbais. Já colegas de trabalho e chefes aparecem como responsáveis sobretudo em situações de assédio moral e sexual. As alas de internação são os locais mais citados para a ocorrência das violências, mas também há registros em triagens, salas de procedimentos e corredores.
Outro dado que chama atenção é a baixa taxa de denúncias. Apenas 15,2% das vítimas de violência física formalizaram queixa, enquanto no caso de assédio sexual o índice cai para 10,2%. O medo de represálias e a descrença em providências efetivas foram apontados como principais razões para o silêncio. Além disso, 84,1% das entrevistadas afirmaram considerar a agressão verbal um episódio “normal” no ambiente de trabalho.
Na audiência, a deputada Dayse Amarilio criticou a falta de investimentos na saúde e alertou para o impacto das agressões na qualidade do atendimento. “O aumento da violência contra os profissionais gera um absenteísmo muito grande, que acaba afetando a população. Contratar seguranças é um paliativo, precisamos de prioridade real para a saúde”, afirmou.
Representantes da categoria reforçaram a gravidade da situação. Para Katia Calegaro, enfermeira fiscal do Conselho Federal de Enfermagem, a violência não pode ser naturalizada. “Sete em cada dez profissionais no Brasil já sofreram agressão no trabalho. Não existe fluxo de atendimento para a vítima, e o índice de suicídio na enfermagem é preocupante”, disse.
A presidente da Associação Brasileira de Enfermagem no DF, Karine Afonseca, relacionou o problema à falta de investimentos. “A violência não está no caráter das pessoas, mas na precarização das condições de trabalho. Instalar câmeras e colocar policiais não resolve”, argumentou.
O presidente do Sindicato dos Enfermeiros, Jorge Henrique de Sousa e Silva, destacou ainda o processo de desvalorização da categoria e criticou a postura de parlamentares que, segundo ele, criminalizam profissionais da saúde.
Por fim, representando o governo, o secretário-executivo de gestão administrativa da Secretaria de Saúde, Valmir Lemos de Oliveira, reconheceu a necessidade de soluções específicas para diferentes perfis de profissionais, prometendo construir um planejamento conjunto com as categorias.
